Reciprocidades de vistos

Em sua recente viagem aos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro se encontrou com seu homólogo Donald Trump e aproveitou a ocasião para, finalmente, abolir a exigência de vistos de entrada no País para os turistas norte-americanos, japoneses, australianos e canadenses.

Obviamente houve grande repercussão na mídia, e até, embora pequena, certa reclamação por parte de um grupo que exigiu a contrapartida norte-americana. Assim como aquela ala mofada do Itamaraty, que só pensa em torrar dinheiro público em suntuosas embaixadas que não retratam a realidade brasileira, exceto sua vocação megalômana, faltou por parte dos insatisfeitos a racionalidade econômica.

Durante muito tempo o turista brasileiro tomou conta dos aeroportos em todas as partes do mundo. E, por essa razão, delegações dos mais distintos destinos chegaram ao País, entusiasmados com o potencial emissor verde e amarelo. Nossos conterrâneos espalharam bilhões – sim, bilhões – de dólares em todos os continentes, principalmente nos Estados Unidos e na Europa.

A obrigatoriedade de visto para conhecer Orlando, Nova Iorque e Califórnia sempre causou menos prejuízo para os norte-americanos que o inverso.  E a razão se explica por Kotler e alguns de seus “Ps” – que já foram quatro e hoje chegam a 13. Conhecer os parques da Disney e Universal, visitar os estúdios de cinema, fazer compras compensam as taxas, os esforços e a burocracia para ter o visto.

Além disso, a promoção do turismo norte-americano é invejável. Não só o Brand USA, mas as diversas cidades e mesmo as atrações têm estratégia, foco e orçamento para atrair visitantes de todo o globo.

Quando falamos do Brasil, nos deparamos com inúmeras dificuldades, que já começam com o produto.  Embora tenhamos belezas naturais, excelentes hotéis e um je ne sais quoi que atrai o estrangeiro,  O Brasil, no geral, ainda possui grandes problemas, incluindo infraestrutura – estradas, ruas e até telecomunicações- sem deixar de mencionar a mão de obra pouco qualificada.

A promoção também é desencontrada. O País, por meio da Embratur, os estados e as cidades não criaram uma estratégia única que coloque em primeiro lugar a mensagem do Brasil como destino imprescindível para se conhecer, abraçando as mensagens de todos os territórios. Trabalhamos muito pouco o conceito de rotas. Seja da cachaça, das cidades históricas, do vinho ou mesmo do Carnaval.

E, se as campanhas de promoção já são ruins, a situação fica pior com as notícias que circulam pelo mundo. Inhotim (MG) e o Museu Nacional (RJ) são emblemáticos. Assim como o lamentável post do presidente desqualificando a festa que mais atrai turistas para o País.

Mas se nossas mazelas já são conhecidas por todos, é preciso aproveitar as oportunidades como a novidade dos vistos. Até quando relegaremos às margens o nosso receptivo? As empresas que trabalham emissivo são importantíssimas para a nossa indústria, gerando muitos empregos, mas é preciso um investimento maciço em receptivo hoje.

É hora de apoiar DMCs e toda a estrutura que acolhe os estrangeiros. Cabe aos hotéis exigir inglês e espanhol de suas equipes. Trata-se de uma situação inadmissível nos deparamos com recepcionistas de alojamentos que não são bilíngues, assim como funcionários de aeroportos e companhias aéreas.

O governo precisa concentrar esforços em segurança pública. A cor das roupas de meninas e meninos não espanta turistas, tampouco aumenta o valor que pagamos em produtos e serviços – poucos se dão conta que o valor dos seguros e convênios médicos é alto por conta dos riscos de violência no País.

Os ministros que estão mais em evidência no país não são o da economia, o da justiça e o da infraestrutura. Os três mais comentados, embora conduzam pastas importantes, estão envolvidos em polêmicas ideológicas e não econômicas.

É hora de a indústria do turismo – sobretudo a hotelaria, os receptivos, os Convention & Visitors Bureaux, as companhias aéreas nacionais, as empresas rodoviárias, os parques temáticos, aplicativos – exigir do governo esforços no que realmente nos interessa: segurança pública, infraestrutura e o eficaz gasto na promoção do Brasil.

Por outro lado, deixando o paternalismo e a vitimização de escanteio, o mercado precisa investir maciamente na formação das equipes, na tecnologia e na qualidade dos serviços.  Eis aí uma reciprocidade que vale a pena.

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